A profecia e o paradoxo da vanguarda na interface

Bom, agora é o último capítulo do livro “Cultura da Interface” de Steve Johnson, cujo título é “Conclusão – A Infinidade Imaginada”.

É o capítulo com mais abordagens sobre a interface, pois o autor resolve discutir previsões e pontos de vista sobre diferentes aspectos da interface. Justamente por essa densidade de informações, irei apenas comentar alguns pontos que achei importantes dentro do capítulo, mas com grande receio de que possa escapar algo que julgar “menos importante”. Por isso que recomendo a leitura do livro.

Na primeira parte do capítulo, já temos uma indagação: como a interface digital pode mudar, efetivamente, nossa forma cultural da sociedade? Nesse ponto, Johnson dá o exemplo da invenção da perspectiva no Renascimento. Se, até antes de sua criação, a pintura era calcada em moldes realistas e ilustrativos, com a invenção da perspectiva tudo mudou, inclusive o mundo. A pintura era vista como ilustração, mas com a perspectiva ela ganhou ares de representação, pois a perspectiva moldou uma forma de abordagem realista do mundo em um quadro. E isso fez toda uma diferença, porque mudou canônes culturais e a forma como o mundo poderia ser representado. Ou seja, foi uma mudança profunda na sociedade e na cultura, culminando no Renascimento.

Assim, Johnson afirma que a interface digital está nesse momento da mudança. Assim como a perspectiva demorou para ser assimilada e adquirir a sua importância socio-cultural, para Johnson, a interface ainda provocará mudanças de mesmo grau da perspectiva. E essas serão causadas por conta, principalmente, do contexto infocultural de hoje. Temos tanta informação que a interface é a saída de “representação” do mundo, ou seja, uma forma de visualização e de controle dessa maré de bits e dados.

Outro ponto de grande interesse é a questão da experimentação na interface. Para Johnson, a interface pode ser considerada uma arte, por lidar com representações e mediações. Porém, uma arte com aspectos quase únicos, por conta de seu principal paradigma: coerência e experiência de usuário. Ao contrário de outras artes, a interface tem, na sua essência, a preocupação com o feedback do usuário. Para Johnson, esse é o grande obstáculo parao surgimento de experimentações e vanguardas na interface digital. Justamente objetivando a facilidade do usuário, a experimentação encontra-se limitada criativamente. Porém, Johnson afirma que é necessário que a interface se desgrude desse propósito de coerência para ganhar outros ares. “Às vezes é bom ficar perdido e desagradar algum público para que sua idéia ganhe destaque”. Johnson confia que o mundo já está acostumado a novidades e a desafios, principalmente no campo digital. Assim, ele acredita que a vanguarda de interface sofreria restrições no começo, mas logo conseguiria cair no hábito das pessoas. “As pessoas de todas gerações de hoje são muito mais abertas a novidades do que 50 anos atrás. E isso é utilizado e valorizado pela tecnologia atual. Por que não na interface também?”

Assim, Johnson encerra o livro com a proposta de que suas idéias sejam palco de discussões sobre a internet de hoje e de amanhã. Será que a interface sofrerá mudanças de paradigmas a curto prazo? Qual o limite entre metáfora e representação na relação entre interface e o mundo? Para Johnson, são perguntas que permeiaram nossas discussões sobre internet a partir dos nossos tempos.

Um ótimo livro mesmo, recomendo a todos.

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